quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Experiência Internacional: A aluna Maria Giulia Gaede Senesi relata sua experiência em programa de formação da ONU


A aluna Maria Giulia Gaede Senesi participou do programa de Formação Complementar na Missão Permanente do Brasil junto à Organização das Nações Unidas e Outros Organismos Internacionais em Genebra (Delbrasgen) no período de 18 de abril a 14 de julho de 2017. 

Confira mais detalhes sobre a experiência em sua entrevista para o Blog Internacionalize-se. 




Blog Internacionalize-se: Conte-nos um pouco mais a respeito da Delegação Permanente do Brasil para as Nações Unidas em Genebra (DELBRASGEN).

Maria Giulia: Delegação Permanente do Brasil para as Nações Unidas em Genebra é composta por vários diplomatas, conselheiros, ministros, oficiais de chancelaria, contratados locais e dois embaixadores que atuam em temas cruciais da conjuntura internacional. A rotina de trabalho é cheia, já que durante todo o ano, diversos eventos sobre variados temas que competem à missão ocorrem em Genebra e o impacto e decisões concernentes a esses eventos  devem ser reportadas para o Brasil, bem como todo o processo de preparação anterior necessário para que as tomadas de decisões estejam em consonância com o interesse nacional. Toda a equipe então, tem um caráter dinâmico, de boa estruturação de  suas funções e de verdadeira sinergia com a equipe que atua em Brasília sobre os temas correlatos.

Blog Internacionalize-se: Como foi participar das atividades da DELBRASGEN? Em que tipo de atividades você se engajou em seu período junto à Delegação? 
 
Maria Giulia: A minha participação no programa de formação complementar foi uma experiência incrível e extremamente marcante positivamente nos aspectos profissionais e pessoais. Poder ter acesso e livre entrada a diversas agências da ONU, conviver com a atuação dessas na prática e cotidianamente, conhecer novas áreas de atuação, me integrar do funcionamento de tomadas de decisão em negociações,  conhecer profundamente a atuação  do Brasil em um posto multilateral, dentre tantas outras atividades e conhecimentos depreendidos, foi algo verdadeiramente fantástico. As nossas atuações variavam de acordo com a agenda do momento, que por vezes exigia atividades nos próprios organismos internacionais, e por outras, atividades de preparação e pesquisa dentro da missão.  De modo mais específico, algumas dessas  atividades eram: auxílio à delegação brasileira lotada na DELBRASGEN em suas atividades internas e junto aos organismos internacionais ali sediados;Apoio à delegação brasileira em reuniões de interesse da missão; Pesquisa aplicada e acompanhamento de temas de interesse da DELBRASGEN; Preparação de material de apoio para reuniões internas com delegados brasileiros ou convidados, de outras delegações, organismos internacionais ou organizações não-governamentais;Manejo de documentação e operação de bases de dados de instrumentos internacionais relacionados aos temas afetos à DELBRASGEN,auxílio em relatórios oficiais, entre outras.
  

Blog Internacionalize-se: Quais foram os principais temas abordados durante a sua estadia?
 
Maria Giulia: Os principais temas abordados foram diplomacia pública, direito internacional, direitos humanos, assuntos humanitários,temas sociais como saúde  e trabalho, meio ambiente, desenvolvimento sustentável, e  paz e segurança internacional com enfoque no desarmamento.


Blog Internacionalize-se: Quais foram as Instituições Internacionais do Sistema ONU com as quais você teve contato?
 

Maria Giulia: Além da própria sede da ONU, chamada de “Palais des Nations” que abrigava uma série de eventos de grande porte e impacto, como a Assembleia Mundial de Saúde, Conselho de Direitos Humanos, Conferência Internacional do Trabalho e Conferências do Desarmamento,  tive contato com outras instituições como a  OIT (Organização Internacional do Trabalho), OMS (Organização Mundial da Saúde), UNAIDS, (programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids), UNODA (Escritório das Nações Unidas para Assuntos de Desarmament), a OIM (Organização Internacional para as Migrações), OMM (Organizaçāo Metereológica Mundial), ECOSOC (Conselho Econômico e Social)  e UNCTAD (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento).

 
Blog Internacionalize-se: Como você percebe essas atividades? Como percebe a representatividade da DELBRASGEN?

Maria Giulia: As atividades de todas as áreas de atuação da missāo sāo de altíssimo valor para o Brasil. Por serem realizadas em âmbito multilateral, assuntos de importante impacto global são discutidos, analisados e negociados e que tem impacto em todos os cidadãos brasileiros. Desse modo, um posto multilateral exerce importância de destaque e responsabilidade dentro do Itamaraty. Tive a oportunidade de ver a diplomacia atuante do Brasil, que atua em várias frentes da conjuntura global, com uma delegação muito bem estruturada, diligente e preocupada em como o Brasil pode impactar o Sistema Internacional e como negociar para que o Sistema melhor favoreça os seus cidadãos. 



Blog Internacionalize-se: Durante sua estadia, quais foram os conhecimentos de Relações Internacionais que mais pode aplicar? Como lhe auxiliaram a desempenhar suas atividades?
 

Maria Giulia:A grade curricular de Relações Internacionais como um todo, possui uma interconexão com o mundo e capacita seus estudantes a ver além de acontecimentos e temas de interesse global. Como os temas que trabalhei na DELBRASGEN foram variados, diversos conhecimentos práticos foram utilizados. Poderia listar aqui o Direito Internacional, Teoria das RI, Política Internacional e outros.Entretanto, de modo geral, acredito que as análises críticas de forma ponderada e multicultural  e as institucionais e históricas que adquirimos durante o curso foram de grande valia, tanto para tarefas mais simples como preparação de materiais internos, quanto para análise e relatos de negociação de eventos importantes que o Brasil havia participado.Colaborando então, para a compreensão da complexidade dos temas abordados dentro de um cenário multilateral, e facilitando na execução de tarefas, bem como na assimilação de todos os conteúdos vistos.


Blog Internacionalize-se: O que acha da formação em Relações Internacionais para esse tipo de atividade?

Maria Giulia: Acredito que a formação em Relações Internacionais está extremamente atrelada tanto a atividade diplomática, quanto com a atuação em Organizações Internacionais, que foram as duas das atividades que mais tive contato durante o Programa. A grade ampla do curso, permite que o internacionalista desenvolva capacidades analíticas e críticas extremamente importantes, principalmente quando se trata de posicionar e entender  o Brasil no cenário internacional. Desse modo, acredito o profissional formado nesse curso estará altamente apto a compreender a missão e objetivos que norteiam uma Organização Internacional, seja lá qual seja sua área específica de atuação, ou então representar diplomaticamente um país e negociar importantes temas com outras nações. Na minha avaliação, esse profissional tem toda a  base para ser alguém que busca o entendimento mútuo entre partes de um cenário plural, enxergando todas as suas complexidades e cria pontes, mesmo em assuntos ou temas que parecem inconciliáveis.


 
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quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Opinião: Por que as pessoas estão protestando no Irã?


Por que as pessoas estão protestando no Irã?

Por Andrew Traumann*



Manifestantes da Diáspora Iraniana protestam contra o regime em Londres. Observe a utilização de bandeiras do Antigo Regime, que se tornou símbolo dos oposicionistas.




Nos últimos dias de 2017, o mundo foi pego de surpresa por uma onda de manifestações políticas no Irã. Imediatamente, o presidente norte-americano Donald Trump demonstrou seu apoio ás manifestações e afirmou que “o grande povo iraniano se levantou e está faminto por comida e liberdade”. Curiosa declaração de respeito para alguém que sequer permite a entrada de iranianos em seu país e que há poucos meses chamou o Irã de “uma nação de terroristas”. A embaixadora norte-americana na ONU Nikki Haley propôs uma reunião de emergência para discutir como a ONU poderia apoiar os manifestantes.

Mas afinal, quem são esses manifestantes, quais os interesses envolvidos neste jogo e o que originou a maior onda de protestos no país desde 2009?

As razões primárias dos protestos se originaram em Mashhad (segunda maior cidade iraniana) e depois se espalharam para Teerã e outras grandes cidades são econômicas: o acordo intitulado P5+1 de 2015 (que envolveu os 5 países membros do Conselho de Segurança, mais a Alemanha), propunha que as sanções contra o Irã, que já duram quase 40 anos, seriam suspensas em troca de um drástico recuo no programa nuclear do país. Criou-se então uma enorme expectativa entre a população de que, com o fim do embargo o Irã finalmente sairia do sufoco econômico, receberia maciços investimentos estrangeiros, empregos seriam gerados e que sua qualidade de vida daria um salto qualitativo. Não foi o que aconteceu. 

Na verdade, quase três anos depois, muitas das sanções seguem em vigor. Pra piorar, o presidente Donald Trump logo no início de seu mandato, aprovou dois novos pacotes de sanções e, em outubro não certificou o Acordo, empurrando, sem consultar os demais países signatários, a decisão final sobre a sobrevivência do mesmo para o Congresso Norte-Americano. Assim, o  povo iraniano se sente duplamente enganado: pelo seu governo que prometeu que o Acordo valia a pena e pelo P5+1 que,em sua visão,não tem honrado o mesmo. A iniciativa privada local não se sente encorajada a investir em projetos de longo prazo num país marcado por sanções econômicas.    Segundo dados oficiais, o desemprego no país é de cerca de treze por cento, mas há analistas que afirmam que esse índice na verdade pode ser bem maior.

Claro que nem todos os problemas do país tem origem nas sanções.  O Irã é um país com sérios problemas estruturais que se arrastaram por todo o século XX e que ainda não foram solucionados a contento. Burocracia excessiva, corrupção, dependência do petróleo, altos impostos, aumentos nos preços dos alimentos e até do combustível. No mês passado quando foi votado o orçamento do país, o presidente reeleito Hassan Rohani justificou o aumento do preço da gasolina com a necessidade da manutenção de instituições religiosas pelo Estado. Essa declaração foi um dos estopins da revolta, especialmente no clima de frustração de expectativas que vive o país.   Há também uma enorme dependência dos investimentos da Guarda Revolucionária, instituição criada em 1979 para proteger o Irã de um golpe que reconduzisse o Xá Reza Pahlevi ao poder,que teve uma atuação fundamental na Guerra Irã-Iraque e que hoje representa uma elite não apenas militar,mas principalmente econômica do país,responsáveis pela maior parte dos investimentos,com um fortíssimo lobby no Parlamento e respondendo somente ao Líder Supremo, o Aiatolá Ali Khamenei.


Porém, o que começou como um protesto pela alta dos preços de produtos básicos passou a ser instrumentalizado tanto pela oposição interna ao regime (entre eles muitos saudosos do regime monárquico) quanto por elementos externos. Assim, as manifestações legítimas do povo iraniano têm sido sequestradas por grupos políticos com agendas próprias. Vários opositores do regime no exterior têm usado as redes sociais para estimular as manifestações e transformar um protesto pontual (como os ocorridos em 1999 e 2009) num questionamento do regime como um todo. Como sempre acontece quando há protestos no Irã, analistas internacionais e a mídia, especialmente anglo-americana, prevê a implosão do regime, algo muito improvável,dado tanto ao substancial apoio que o regime possui entre o grosso da população (que também tem saído ás ruas), quanto pelo controle total que o governo possui  dos meios de comunicação,da economia e das Forças Armadas,amplamente fiéis  ao regime.

 Após as malfadadas invasões de Iraque e Líbia devemos ficar sempre muito atentos a quais são os interesses ocultos por detrás de cada discurso em nome da “democracia, liberdade e direitos humanos”. 

*Andrew Traumann é Professor de História das Relações Internacionais no UNICURITIBA.
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sábado, 16 de dezembro de 2017

16 de Dezembro - Dia da Vitória


Nesta data é comemorado o dia da Vitória em Bangladesh - esse pequeno país asiático, pouco conhecido pelos brasileiros, venceu a guerra contra o Paquistão em 1971 após um grande conflito que envolveu também a Índia. Bangladesh tornou-se independente após nove meses de guerra e mais de três milhões de mortos.

Bangladesh era conhecida como Paquistão Oriental e desde sua origem em 1947 possuía conflitos com o Paquistão Ocidental devido às suas diferenças de etnias, religião, língua e economia.

Hoje a República Popular de Bangladesh apesar de ser um dos países mais populosos do mundo, vem mudando sua história de dificuldades, despontando nas duas últimas décadas com forte crescimento econômico e programas para redução da pobreza.

O país vem fortalecendo a participação de mulheres no mercado de trabalho, na política e também na diplomacia.

16th of December - The Victory Day

On this date is celebrated the Victory Day of Bangladesh - this small Asian country, little known to the Brazilians, gained its liberation from Pakistan in 1971 after a great conflict that has also involved its allied India, resulting in nine months of war and more than 3 million people dead.

Previously Bangladesh was known as East Pakistan and since its origin in 1947, had conflicts with West Pakistan due to its differences of ethnicity, religion, language and economy.

Today the People's Republic of Bangladesh, despite being one of the most populous countries in the world, has been changing its history of difficulties, emerging in the last two decades with strong economic growth and programs to reduce poverty. 

The country has also strengthened the participation of women in the labor market, in politics and also in diplomacy.



                                                                                                           Profº Marcelo Grendel Guimarães
                                                                                                           Consul Designado de Bangladesh





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terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Opinião: GKS 2017 - Impressões sobre a Coreia do Sul depois de um mês de estudos e vivência no país


O aluno do sétimo período de Relações Internacionais do UNICURITIBA, Gabriel Thomas Dotta, participou de um programa estudantil oferecido pelo  governo sul-coreano. Hoje, ele relata a experiência no Blog Internacionalize-se. 

GKS 2017: Impressões sobre a Coreia do Sul depois de um mês de estudos e vivência no país
Gabriel Thomas Dotta[1]

            Em junho do corrente ano, fui acariciado com uma das melhores notícias que já recebi: havia sido aceito no Global Korea Scholarship for Undergraduate Students from Africa and Latin America. O GKS é um programa do governo sul-coreano que tem por objetivo auxiliar na promoção do desenvolvimento dos países-parceiros da Coreia por meio da educação. Para tanto, o governo seleciona estudantes de graduação do mundo em desenvolvimento e os leva à Coreia, onde passam um período estudando questões consideradas afeitas ao desenvolvimento de seus países de origem.
            Em 2017, foram selecionados oitenta estudantes, quarenta da África e quarenta da América Latina. Para nossa região, os campos prioritários foram as ciências materiais e a ciência política e estudos internacionais, sendo dedicadas vinte vagas para cada. Assim, para o eixo em que participei, foram selecionados vinte graduandos de áreas relacionadas à ciência política de todos os países latinoamericanos, tendo em conta o rendimento acadêmico, a elaboração de projeto de pesquisa e o perfil dos estudantes.
            O governo coreano arcou com todos os custos relevantes ao programa: passagens aéreas de ida e volta, alimentação, hospedagem e outros. Na ciência política, dos vinte estudantes selecionados dez foram brasileiros, os outros sendo da Nicarágua, República Dominicana, Honduras, Argentina, Peru, México e Colômbia. A composição de nossa turma foi surpreendente, uma vez que a seleção não tinha cotas nacionais, apenas de avaliação comum. Por isso, foi interessante ver o grande peso da América Central.
            Passamos cinco semanas na Coreia, tendo aula de segunda à sexta das 9:00h às 18:00h. Os conteúdos abordados tratavam de administração pública, cooperação internacional e logística, com foco na experiência coreana. Além das aulas, tivemos que desenvolver pesquisas, que ao final do programa foram apresentadas e avaliadas em uma feira científica. Ao menos uma vez por semana era realizada também alguma visita técnica: a órgãos públicos, organizações internacionais sediadas no país, empresas nacionais de peso, como a Samsung, e também a sítios históricos.
            Residimos e estudamos na Universidade Nacional de Incheon, localizada em Songdo, em Incheon, cidade portuária vizinha da capital Seul. Songdo é um território que até recentemente era mar, tendo sido transformado em terra sobre a qual se edificou uma cena urbana. É chamada de “cidade do futuro”, planejada desde o zero há menos de uma década, repleta de tecnologias. Ali estão sediadas organizações como o escritório regional do Banco Mundial e a UNESCAP, comissão sub-regional com funções iguais às de nossa CEPAL; e também as principais indústrias do país, que ali são sujeitas a um regime tarifário diferenciado, visando promover a ocupação do território.
 Durante a estadia, tive a sorte de estabelecer fortes amizades com coreanos, como os que residiam no dormitório da faculdade. Com isso tive a oportunidade de vivenciar vários aspectos da sociedade e me engajar em temas não abordados dentro da sala de aula. Enquanto internacionalista, as questões que mais me chamaram a atenção foram a Coreia do Norte e os Estados Unidos dentro do imaginário social sul-coreano.
Fui com a ideia de que os sul-coreanos viviam em um estado permanente de insegurança por conta da Coreia do Norte, e que por isso nutriam sentimentos negativos contra o país. Na verdade, a despeito da ressonância mediática no Ocidente, nenhum dos coreanos com quem conversei acreditava na possibilidade de um ataque ou guerra, acreditando se tratarem de ameaças retóricas, sem qualquer influência em seu cotidiano.
Ademais, os sul-coreanos tendem a partir de uma distinção muito clara entre povo e governo norte-coreano, que permite uma visão de irmandade. Um discurso que ouvia com frequência era o de que “a Coreia é uma há cinco mil anos; foi dividida há pouco mais de cinquenta e em razão de disputas políticas entre estrangeiros”. A reunificação das Coreias é considerada uma realidade inevitável para a maioria das pessoas; ao ponto de eu ter ouvido, uma vez, que é até bom que o Norte desenvolva armamentos nucleares, já que assim, quando reunificada, a Coreia nasceria como potência nuclear.
Com relação aos Estados Unidos, fui com o estereótipo de que os sul-coreanos teriam uma visão quase natural em favor do país. A verdade é que é bastante comum uma visão bastante crítica, sobretudo em se tratando das relações com o Norte, em que o papel estadunidense é muitas vezes visto como contrário aos interesses do Sul. Quando estive lá, a discussão da vez era o THAAD, sistema antimíssil em instalação pelos EUA na fronteira. Era frequente a leitura de que o THAAD não visava proteger à Coreia, mas sim ao Ocidente, e de que sua instalação mais promoveria que dissiparia tensões.
Embora a segurança não seja tópico comum, ela reflete em uma das questões sociais do país: o serviço militar, ponto de reclamação constante dos jovens. Na Coreia, todos os homens devem passar pelo serviço militar, sem exceções. O serviço obrigatório dura dois anos e, mesmo após seu término, os homens são constantemente convocados para treinamentos. Naturalmente, essa obrigatoriedade tem efeitos sobre a sociedade coreana como um todo, sobretudo na construção de seus estritos papéis de gênero.
 Algumas outras questões sociais me chamaram a atenção, como o sistema educacional. O adolescente coreano tem a rotina comum de iniciar seus estudos assim que acorda e finalizá-los apenas antes de ir dormir. A educação pré-universitária é pública e de alta qualidade, mas por ser omnipresente é considerada insuficiente para muitas famílias, que sonham que seus filhos ingressem nas melhores instituições do país.
Por isso, os estudantes frequentam os hagwon, escolas privadas especializadas em uma disciplina. A rotina comum é ir à escola pública, depois ir a uma escola de matemática, uma de inglês e uma de coreano; e então ir para casa estudar. O vestibular é unificado, como nosso ENEM, e é um grande evento: no dia, aeronaves não podem circular em espaços aéreos que possam perturbar os estudantes durante a prova. Todo esse sistema é considerado bastante abusivo, existindo forte mobilização em seu contrário.
Além de intensa, a educação pré-universitária é bastante mecânica. Uma história que me surpreendeu foi a de um amigo que contou que, nas provas de literatura, um modelo comum de questão é o em que há um enxerto de um livro com lacunas em que os alunos devem preencher a exata palavra utilizada pelo autor: os estudantes precisavam decorar capítulos inteiros dos livros. Felizmente, a atual geração reconhece a inadequação pedagógica desse sistema, ao qual os jovens comumente atribuem a culpa por seu mau desempenho nas universidades, onde o sistema de avaliação tem carga reflexiva.
A obsessão pela educação no país cria também um desequilíbrio: uma massa de mão-de-obra hiper-qualificada para qual não há trabalho, sendo a emigração a saída mais comum. Os empregos de baixa especialização são ocupados por estrangeiros e, principalmente, idosos: a terceira idade coreana é a faixa mais pobre da população, não tendo acompanhado o boom do país, que ocorre a partir da década de 1980.
Outra questão social notável diz respeito ao álcool, elemento central na cultura coreana, de forma que é rotina comum beber todas as noites, mesmo durante a semana e dentro da faculdade. A mais comum é o soju, destilado de arroz ou batata doce. A “prática de beber” é marcada por uma ritualística que induz a sua autoreprodução: se alguém mais velho, e isso inclui idades muito próximas (a idade tem um papel inestimável nas relações sociais coreanas), lhe oferece uma bebida, é desrespeitoso rejeitar. No trabalho, se espera de um bom empregado, homem ou mulher, que saia beber com seu patrão sempre que convidado. Naturalmente, o alcoolismo é um problema muito comum.
Falando em cultura, não há como deixar de mencionar a cultura “em sentido estrito”. A Coreia possui uma indústria cultural muito robusta e o entretenimento ocupa uma parcela considerável da economia. K-pop, k-drama, k-movie, k-beauty: a cultural comercial consumida pela maior parte da população é a produzida dentro do país. Isso reflete diretamente no padrão estético coreano, bastante particular tanto em relação ao ocidental quanto ao japonês e chinês, sociedades próximas.
Me surpreendeu também o fato de que, diferente do que esperava, não é tão comum encontrar estrangeiros na Coreia. Por isso, existe toda espécie de reação ao se deparar com um estrangeiro, às vezes bastante negativas. Na maior parte das vezes, porém, é apenas curiosidade. Uma vez, no metrô, uma senhora sentou ao meu lado e começou a passar a mão na minha perna, fazendo perguntas muito espantada. Pelo que pude entender com meu coreano meia-boca, estava inquieta com o calor que eu devia estar passando por ter pelos na perna, fato incomum entre os homens coreanos.
Finalmente, preciso comentar a comida. São várias as questões que tornam a gastronomia coreana particular: pratos muito apimentados, frios (uma refeição comum é o nengmyeon, macarrão em água com gelo e melancia ou pasta de pimenta), e, em casos extremos, vivos (como o sannakji, polvo). O maior estranhamento, porém, foi a inexistência de separação em comidas de café-da-manhã, almoço e janta. Um “café-da-manhã” comum no refeitório da faculdade era o combo de uma cumbuca de arroz, uma de sopa, uma de saladas e um prato com alguma proteína apimentada. O almoço de um dia era o “café” do dia seguinte, a janta do dia anterior e assim por diante.
O programa de que participei contribuiu muito para a minha formação pessoal e acadêmica. Cada país tem uma cultura própria que se imprime em um universo e sistema de pensamento absolutamente particulares. Ainda assim, por uma série de fatores, o Ocidente partilha de determinadas premissas que tornam as diversas culturas algo assimiláveis entre si. A vivência em um país como a Coreia, por sua vez, mostra contornos da realidade que raramente encontraríamos nos países com que estamos acostumados.  
Estudar em uma turma de internacionalistas de diferentes fundos latinoamericanos foi igualmente inestimável. Nos tornamos muito próximos quase que naturalmente, em razão de semelhanças que nos tornavam estranhos na sociedade coreana. Ao mesmo tempo em que muitas vezes nossos pensamentos eram similares, evidenciando o histórico comum de nossa região, em outras eram irreconciliáveis. Uma aula que muito me marcou foi sobre democracia, quando discutíamos nossas percepções; tema sobre o qual nossos colegas da América Central têm histórias (e presentes) muito diferentes da nossa.
Academicamente, além de impulsionar a desconstrução de paradigmas tomados como dados pelas ciências ocidentais, o programa me apresentou a uma série de temáticas e abordagens que, acredito, já são visíveis em meus esforços de pesquisa.
Para finalizar, há duas dicas que dou a qualquer aluno que tenha se interessado pela experiência. A primeira é que acompanhe as embaixadas dos países no Facebook. Foi ali que tomei ciência do processo seletivo para o programa. E a Coreia não é caso raro: muitos países possuem programas de bolsas desse tipo. A segunda é que se empenhe nas avaliações da faculdade. Sabemos que o método de avaliação na graduação é um tanto injusto, padrão que não é exclusivo da instituição ou mesmo do país. Infelizmente, porém, o GPA, média de todas as notas da faculdade, é o primeiro, talvez o mais importante, critério de seleção para bolsas desse tipo na maior parte dos países.



[1] Graduando do sétimo período de Relações Internacionais no UNICURITIBA
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sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Redes e Poder no Sistema Internacional: Guerra e Estado-nação nos Estados Unidos da América


A seção "Redes e Poder no Sistema Internacional" é produzida pelos integrantes do Grupo de Pesquisa Redes e Poder no Sistema Internacional (RPSI), que desenvolve no ano de 2017 o projeto "Redes da guerra e a guerra em rede" no UNICURITIBA, sob a orientação do professor Gustavo Glodes Blum. A seção busca compreender o debate a respeito do tema, trazendo análises e descrições de casos que permitam compreender melhor a relação na atualidade entre guerra, discurso, controle, violência institucionalizada ou não e poder. As opiniões relatadas no texto pertencem aos seus autores, e não refletem o posicionamento da instituição.

Guerra e Estado-nação nos Estados Unidos da América

Lucas Andrade Quental
Luiz Guilherme G. Schinzel

Por meio das pesquisas desenvolvidas no âmbito do subgrupo “Guerras Tradicionais” – cujas características majoritárias englobam forças violentas organizadas e promovidas pelas unidades políticas entre si, ou seja, o uso da violência para maximização teleológica de seus objetivos –, pôde-se perceber que é de suma relevância considerar e compreender as forças profundas que movem e sustentam os conflitos entre atores capazes de atacar e se defender, como os Estados. 

Em um primeiro momento é preciso levar em consideração a noção conceitual de Estado-nação, portanto é relevante para a pesquisa a participação dos nacionais nas decisões políticas de seus representantes, principalmente quando se trata de conflitos entre Estados-nações. Portanto, as pesquisas buscam abarcar em sua análise o representante máximo da nação utilizado como objeto de pesquisa, por traduzir as intenções e vontades oficiais dos nacionais. Com tais elementos em mente, buscou-se analisar os discursos oficiais de tais representantes, e como estes influenciam nas reverberações políticas da guerra, tanto no Sistema Internacional, quanto no âmbito doméstico.

Através do estudo de caso sobre a relação entre a estabilidade socioeconômica dos EUA e o índice de aprovação do Presidente, com o nível de belicosidade na retórica dos discursos presidenciais durante o período da Guerra do Iraque, e os momentos próximos ao início e ao fim deste conflito, torna-se visível as intenções das partes. Assim, através dos discursos presidenciais estadunidenses, nota-se que, supostamente, há uma intenção falaciosa de resguardar a segurança mundial. Mas, também, há, hipoteticamente, uma intenção econômica e prestigiosa sob tal véu discursado. 

Pode-se afirmar que há a utilização de armamentos discursivos, que é o objeto da pesquisa, e armamentos materiais. Diversos foram os métodos utilizados durante o conflito. Entretanto, podemos salientar o uso do discurso para assolar a integridade do reconhecimento da soberania do outro Estado – além de garantir à parte detentora de maior grau de sofisticação e poder de discurso, um respaldo do Sistema Internacional e aproxima-o da legalização no Direito Internacional Público no âmbito do Sistema Internacional –, e os métodos de destruição física, que englobam armamentos militares e paramilitares. 

A guerra sempre foi algo presente em toda a história da humanidade. Grandes conflitos ocorreram desde que o ser humano passou a pisar sobre esta terra. Organizaram-se politicamente e líderes guiaram seus povos para os mais diferentes conflitos de nossa história. Mesmo após duas guerras mundiais, a guerra insiste em não se tornar coisa do passado. Recentemente temos sido testemunha dos discursos do presidente Donald Trump que em muitos momentos desafiam as normas internacionais e contrariam o bom senso que se espera de um presidente. Portanto, a figura controversa de Donald Trump é o objeto de estudo ideal para compreendermos se ou até que ponto os nacionais são cúmplices nas guerras ao longo da história. 

Portanto, será necessário analisar não apenas a personalidade de Donald Trump, mas o quanto ele corresponde aos sentimentos e vontade de seus nacionais. O resultado poderá apresentar uma luz a respeito de outros fenômenos políticos ao longo da história e entender melhor o fenômeno da guerra.
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quarta-feira, 8 de novembro de 2017

As contribuições de Norman Angell para o Idealismo Moderno.

Artigo apresentado na disciplina de Teoria das Relações Internacionais 1, ministrado pela Profa Dra Janiffer Zarpelon, do curso de Relações Internacionais do Unicuritiba.




* Bruna Barbieri 

Angell era um pacifista e defendia cooperação entre os Estados para a obtenção da paz e que a ideia de que a guerra traria o poder político é apenas uma ilusão, sendo assim, portanto, tenta dissuadir seus leitores de que a guerra não traria benefícios para os vitoriosos e muito menos para os perdedores, principalmente da perspectiva econômica dos países envolvidos. Ele então propõe que a “paz armada” não é tão ruim e que poderia trazer certos benefícios uma vez que as potências envolvidas evitariam atacar a outra temendo que a sua tecnologia e seu poder de destruição pudessem causar a destruição mútua, mantendo assim um certo equilíbrio entre os países.
O grande temor de invasões por parte de inimigos fez com que se instaurasse nas potências europeias no fim do século XIX e início do século XX uma corrida armamentista, buscando sempre novas tecnologias e mantendo o exército alerta em caso de ataque, impulsionando a modernização de seus equipamentos. Esse episódio acarretou a chamada ”paz armada”, a qual foi questionada pelos principais teóricos da época. Para Angell, entretanto, o constante clima de tenção poderia ser benéfico na medida em que as Nações estariam receosas em atacar seus inimigos, pois nenhum Estado começaria uma guerra sem saber se seu potencial bélico seria mais poderoso do que o de seu adversário, não se reservando apenas ás grandes potências, mas influenciando até mesmo regiões onde houvessem conflitos menores.
A principal teoria defendida por ele era de que a guerra não é economicamente viável, nem para o Estado conquistador nem para o Estado conquistado, pois a concepção de que a conquista de novos territórios aumentaria a riqueza dos Estados conquistadores era um teoria antiquada, e que no sistema financeiro no qual as economias estavam inseridas a posse e o saqueio de outros países tenderia a prejudicar a economia dos países vencidos, tendo em vista a interdependência das economias em decorrência da difusão das comunicações nas transações comerciais.
Para alguns a guerra, é da natureza uma, sendo assim, seria inevitável o conflito de interesse, o que levaria os governantes a se envolverem em disputas, sacrificando alguns em nome do bem de toda a Nação. O estadista deve enfrentar a guerra quando ela tiver um papel importante na realização dos interesses da nação. Fazem ainda uma comparação com os trabalhadores, que se submetem a trabalhos perigos apenas para enriquecer, então não haveria problema em o governante sacrificar seus soldados para garantir o que seria melhor para o desenvolvimento daquele Estado. Para contestar essa lógica dos defensores da guerra como algo que vá beneficiar a economia dos Estados, Angell afirma que devido à interdependência no mercado mundial, a segurança das riquezas de um Estado depende de outros fatores que não o bélico. Somente a extensão do território administrado de uma potência não implica na prosperidade dos habitantes desse território. A extensão do território poderia inclusive prejudicar o status de grandes potências. Ele completa dizendo que no caso de alguns países de extensão territorial pequena e de um exército militar limitado conseguem manter a sua economia estável mesmo depois de uma invasão militar de uma grande potência. Muitas vezes a renda per capita de tais nações é igual ou superior à renda das grandes potências. Porém, isso não garante a estabilidade desses países.
Para os defensores da cooperação entre as nações, a invasão de território implica em prejuízo na economia do vencido, e isso não é interessante para a economia internacional. Uma nação não aumenta sua riqueza ao expandir o seu território, pois ao anexar um Estado o conquistador anexa também seus habitantes, esses sim são os únicos proprietários da riqueza correspondente, e o conquistador nada ganha. Além disso, a hegemonia no comércio internacional está ligada ao preço de seus produtos e a qualidade que ele é ofertado no mercado; nessa perspectiva é possível que um país arruíne outro sem precisar de um conflito.
Para manter uma balança comercial favorável no mercado mundial o país deve importar e exportar de forma equilibrada, se um país conquistar a economia de outro país acabará com o seu mercado consumidor para a exportação. É seguindo essa lógica que a maior parte dos defensores da paz mundial irá argumentar para tentar evitar um conflito mundial, o que já era previsível na virada do século XIX para o século XX.A ciência da política internacional surge nesse contexto com a intensão de elaborar teorias que viabilizassem a relação entre os estados europeus de tal forma que impossibilitasse a guerra. Os pensadores utópicos defendiam a cooperação entre os estados, baseando-se no argumento de que a economia dos países europeus era interdependente e, portanto, nenhuma nação deveria guerrear com outra, pois estaria colocando em risco a sua prosperidade e soberania nacional. Já os pensadores realistas não elaboravam teorias para evitar a guerra, apenas se preocupavam em analisar os fatos.
Ao longo de seu livro “A Grande Ilusão” Angell levanta a sua principal questão: que para garantir o desenvolvimento de sua economia e manter um status de bem-estar social na população não é preciso que os Estados entrem em guerra uns contra outros em busca por novos territórios. A disputa por territórios, o saqueio da economia dos conquistados assim como tomar por escravos os homens que outrora foram livres do país conquistado pertence a um período anterior a consolidação do Estado moderno, um período em que as economias nacionais eram independentes.
Contudo, com o desenvolvimento das comunicações e a interação entre as economias, o desenvolvimento econômico e social dos Estados passa a não depender mais da expansão de suas fronteiras, a supremacia militar de um povo não garante uma economia forte. Mesmo sendo vitoriosa a guerra não necessariamente é lucrativa para o conquistador. A divisão do trabalho, intensificado pela disseminação da comunicação é um dos fenômenos que pode ser observado como causador da interdependência financeira das nações civilizadas.
Em seu terceiro capítulo, Angell comenta sobre os axiomas, verdades universalmente aceitas e inquestionáveis sobre o modo como o poder era atribuído à política, descritos no capítulo anterior por Frederick Harrison. a estabilidade financeira e industrial de cada nação, sua segurança no campo comercial, sua prosperidade e bem-estar dependem da aptidão para defender-se contra os ataques dos outros países, os quais estarão prontos, sempre que possível, a tentar uma agressão, para aumentar seu poder e, portanto, o seu bem-estar e sua prosperidade, às custas do fracos e dos vencidos, como ele mesmo coloca.
Esses axiomas são manifestações vividas e evidentes, constituem um dos erros mais enganosos e perigosos que se possa cometer, erro que tem em alguns dos seus aspectos, o caráter de uma ilusão de ótica, de outros o de uma simples superstição, a qual, além de ser profunda e universal, possui males tão graves como o de deslocar dos seus caminhos normais um imenso caudal de energia humana, desviando-o de tal forma que, se de tal superstição não nos conseguirmos despojar, representará uma verdadeira ameaça a civilização. Angell fundamenta sua opinião mediante sete proposições que abarcam o campo das afirmativas características da política adotada na Inglaterra e na Alemanha. Essas sete proposições podem ser resumidas em uma só: em nossos dias, a única conduta possível para o conquistador é deixar a riqueza de um território em mãos de seus habitantes, que são os únicos e verdadeiros proprietários da riqueza correspondente.

Norman Angell vai contra a ideia de outros autores como Edward Carr, que a partir de estudos empíricos os estados buscam objetivar particulares, ou seja, os estados não buscam o bem da sociedade, ele busca os interesses particulares dos mais abastados, riquezas e os estados são contrários a harmonia de interesses. O autor também discute nesse capitulo o equilíbrio ou balanço de poder. A ação é fundada na política de poder. Que se contrapõe a harmonia de interesses. Afirma que todos os estados consideram o poder e se fundamentam nele. Angell desqualifica o poder querendo que a sociedade internacional não se fundamente no poder, indo contra Carr. Para ele, sem equilíbrio de poder nada funciona.


REFERÊNCIAS:

ANGELL, Norman. A grande ilusão. Brasilia: UNB, 2002.

* Bruna Barbieri: estudante do curso de Relações Internacionais do Unicuritiba. 


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